sábado, 10 de julho de 2010

I don't wanna stay


Tranco a porta. Penso no que acabei de fazer.
Agora é tarde, este é o limite. A vida até este segundo ou a morte que nascerá no próximo não podem ser evitadas.
Escuto Beatles como se quisesse lembrar, mas de quê? Escuto para nutrir na alma um sentimento mais terno em relação ao viver, para fazer brotar a esperança de que algo pode ser melhor, de que ainda haverá um campo de morangos no final de algum dia.
Talvez se eu tivesse acreditado mais...
Escuto Nirvana no mais alto volume como se quisesse ser esquecida. Porta e janela fechadas tornam o agudo mais agudo e o grave quase insuportável, semelhante às pulsações. Meu grito não pode ser ouvido.

Tanta revolta assim não adianta, pode esquecer. As cortinas estão a se fechar, a luz está acabando, é o último pedaço de torta, seu cachorrinho está doente porque comeu seu ursinho de pelúcia preferido, aquele garoto realmente não te amava, você estava certa o tempo todo, o que escondia no armário acabou antes que descobrissem, fiz a maior besteira que podia. Black.

Será que os vizinhos escutaram? Bem, eles são idosos quase surdos que têm uma enfermeira malvada que deve estar bebendo cerveja na varanda. Não há com o que se preocupar.

Este será o último passo. Claro! Não podia terminar diferente. Antes cuidar dos outros para então reparar minhas feridas. Vou aumentar o volume e a mesma música tocará até que alguém arrombe a porta. Hoje não pertubarão minha paz.

Sem dor, sem choro. Sem arrependimento, sem lembranças. Sem futuro.
Este é nosso último beijo, você percebeu?
Yellow Ledbetter.

- Mas que clichê!

domingo, 30 de maio de 2010

"Monotonia"

É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,

Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia…

E a própria dor – quem diria?-
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma…

E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!

Ainda bem que tudo acaba…
Ai que vida tão comprida…
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava!


Mário Quintana

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Problemática do pessimismo


Na vida nada há que não envolva sofrimento.
Desde o amor até a morte,
De um extremo a outro,
Sofrer. Solidão. Sofreguidão.

A felicidade dos fortes
(ou a embriaguês dos fracos)
Não existe.
A vida nos obriga a viver.
E viver é desilusão, é sonolência às seis da manhã,
É engolir o choro e esperar a lua aparecer.

Viver é lutar contra aviões bélicos em pleno deserto,
Às vezes com o coração-escudo de aço, às vezes nu,
E correr, correr, correr... Sabemos que não venceremos.
A vida nos obriga a evitar o que mais desejamos:

O esquecimento eterno.

O que queremos não está nos livros,
Não está no tecido,
Não está no granito nem no espírito.
O que queremos está no abismo!

Não ouça ninguém...
Você quer o fim e o começo
Ar, terra, água e fogo.
O que está entre, está quase,
Não vale a pena.
O que queremos está no abismo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Vento quente, sangue frio (e vice-versa)


Acontece que a princesa estava cansada de se sentir vazia.
Seu coração, como uma explosão de vento frio,
abriu-se para o mar dos sentimentos...
E afundou.
Nunca aprendera a nadar, a não ser em sua banheira, trancada na suíte.
O coração da princesa vinha cansado do vazio, a bater lentamente, endurecido.

Depois da explosão, os destroços.
A princesa não soube como fazer.
O coração pulsava, até sangrava, e ela não entendia.

Beberam da água do mar dois beija-flores com mel no bico.
Um era do norte, o outro vinha do sul.
Ambos foram embora procurar nova estação.

Na água nem pétalas ficaram.
A princesa acabou com dois vazios:
O que vinha de dentro e o deixado pelos beija-flores.
O coração engolia a água do mar, tentava se safar,
Mas era tarde para aprender - ou se arrepender...
Ele queria um inverno para achar uma superfície.


Na história, a princesa começa vazia, o coração trancado.
A prncesa se perde, culpa do coração que não soube nadar.
Não sobrou ninguém depois da explosão - nem flores.

A princesa tornou-se dois vazios, com meio coração, cansada do mar e fechada em sua suíte.

As ondas podiam ter levado à praia, à ilha ou ao céu...
Porém a princesa nunca acreditou nas ondas brancas do mar
E acabou enterrada em sua própria banheira.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

13.05.2010



She's falling appart...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Encar(n)e


MEDO?

Tenho medo é do viver.


Para viver, mata-se aos poucos a coragem
Que a gente acredita, cinicamente,
Ser o configurar da maturidade.

A gente vive de trás pra frente:
Destrói a alma com o passar do tempo - com a fome do tempo.
Nesce corajoso, vive covarde
E morre com o perdão nos lábios.

sábado, 1 de maio de 2010


Lira da estrela

Da vida me despeço agora.
(Não da vida, mas do viver)
Despeço-me do quase viver,
Do quase agir, da farça de sentir.

Como uma estrela, distante anos-luz,
Sou.
Da Terra, tem o brilho mais bonito e original,
De perto, tudo poeira, tudo átomos fora da dança.

Como o brilho da estrela é minha alma.
Da Terra, lá está ele intocável
De perto, desapareceu.

A estrela morre enquanto o brilho viaja.
O corpo caminha enquanto a alma chora.

O brilho acaba,
Fica só a poeira.
A vontade acaba,
Fica só a incerteza.

Dispersos como matéria cósmica,
Meus seres não se encontram e,
Enquanto viajam,
Perdem o brilho,
Viram estrelas mortas,
Que distantes iludem
Com o brilho nelas suposto.