sábado, 4 de setembro de 2010

E o que mais?


E não sabemos mais o que fazer, aonde ir,
Não sabemos nem o que sentir.
Não sabemos se seguimos, se paramos.
Pena que não dá pra voltar...
O tempo não pára, não volta, não pára...
O tempo dá voltas
Dá voltas e me espreme contra o futuro.

Onde estarei?
Onde estou?
O que é isso? Aquilo? Isto?
E agora, José?
A poesia acabou...

domingo, 29 de agosto de 2010

Domingo



E hoje bateu uma moleza no corpo, daquelas que a alma só quer deitar, só quer aconchego, calor nos pés.

Bateu também um vento frio, daqueles que cantam na janela semi-aberta e esvoaçam as cortinas finas. O vento esfriou o corpo todo e a primeira medida foi buscar aquecimento - e não fechar a janela.

Às vezes parece que a gente quer mesmo é sentir aquilo na pele e da maneira mais displicente possível.

Bateu uma tontura daquelas que a cabeça apronta só pra não pensar em nada, pra se livrar do que é pesado.

Na efemeridade da manhã, o rádio ao fundo dá a trilha sonora do frio... A música lhe escolhe e define - e não o contrário.


Não me deixe só, que eu tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz... ah ah ah


Hoje bateu forte a vontade de só ficar... em silêncio e bem aquecida, só ficar.

E que os pensamentos tomem livres seus rumos, que hoje apenas existo - corredor mal iluminado de uma casa ampla, sem viventes...


Só vou te contar um segredo: não, nada de mais nos alcaçaaa... Então venha me dizer o que será da minha vida sem você...


E depois, como será? Antes, o que foi?


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A vida I


E quem diria que eu te veria crescer! Crescer e acabar desse jeito, desgastada pelas próprias lágrimas, vítima do próprio castigo, do próprio engano.

Quem diria que aquela garotinha gorducha e sapeca, tentando se equilibrar nos pezinhos, de olhos mais singelos que o próprio amanhecer e sem malícia, sem mágoas... Aquela menina que um dia quis voar da janela e seguir uma borboleta iria acabar assim.

A garotinha que foi se tornando uma mocinha, de cachos loiros e pele alva, com os mesmos olhos inatingíveis pela sujeira que todos adquiriam perto dela! Aquela que preferia brincar de casinha sozinha porque somente ela entendia seu mundo e estava muito bem assim. Aquela que quis dar leite ao gato da rua...

Quem diria! Se desmoronássemos perante tudo de errado que acontece, a humanidade não teria chegada a um terço do que é.



É preciso força pra seguir.

quinta-feira, 29 de julho de 2010



O violão e a música cantada baixinho fizeram doer o coração do pobre moço. Ali no bar, na mesa de canto mal iluminada, ninguém saberia descrever o que passava na cabeça dos dois.
Nenhuma palavra e muito sentimento, muita vontade.
Música. Ela servia pra preencher os ouvidos, colocar os corações no mesmo ritmo. A cerveja deveria tê-los deixado mais soltos, mas o que houve foi que estavam aflitos... E cheios de dúvidas. Ele queria carregá-la dali e possuí-la com todo o seu amor. Ela queria simplesmente fugir.
Olhares manhosos e corpos quentes. Seria tão mais fácil se naquele momento começassem a se odiar, se ele a desapontasse a ponto dela querer esquecê-lo ou se ele se apaixonasse pela garçonete!
Não adiantava, aquele era o momento em que duas solidões se encontravam, em que o vazio de um preenchia o do outro. Em cada abraço desacostumado, buscavam a própria alma como a última chance de liberdade.

- Quem são eles?, perguntavam.
- Devem estar se despedindo.

Mas os dois lá no canto nasciam - enquanto não despertassem.

sábado, 10 de julho de 2010

I don't wanna stay


Tranco a porta. Penso no que acabei de fazer.
Agora é tarde, este é o limite. A vida até este segundo ou a morte que nascerá no próximo não podem ser evitadas.
Escuto Beatles como se quisesse lembrar, mas de quê? Escuto para nutrir na alma um sentimento mais terno em relação ao viver, para fazer brotar a esperança de que algo pode ser melhor, de que ainda haverá um campo de morangos no final de algum dia.
Talvez se eu tivesse acreditado mais...
Escuto Nirvana no mais alto volume como se quisesse ser esquecida. Porta e janela fechadas tornam o agudo mais agudo e o grave quase insuportável, semelhante às pulsações. Meu grito não pode ser ouvido.

Tanta revolta assim não adianta, pode esquecer. As cortinas estão a se fechar, a luz está acabando, é o último pedaço de torta, seu cachorrinho está doente porque comeu seu ursinho de pelúcia preferido, aquele garoto realmente não te amava, você estava certa o tempo todo, o que escondia no armário acabou antes que descobrissem, fiz a maior besteira que podia. Black.

Será que os vizinhos escutaram? Bem, eles são idosos quase surdos que têm uma enfermeira malvada que deve estar bebendo cerveja na varanda. Não há com o que se preocupar.

Este será o último passo. Claro! Não podia terminar diferente. Antes cuidar dos outros para então reparar minhas feridas. Vou aumentar o volume e a mesma música tocará até que alguém arrombe a porta. Hoje não pertubarão minha paz.

Sem dor, sem choro. Sem arrependimento, sem lembranças. Sem futuro.
Este é nosso último beijo, você percebeu?
Yellow Ledbetter.

- Mas que clichê!

domingo, 30 de maio de 2010

"Monotonia"

É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,

Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia…

E a própria dor – quem diria?-
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma…

E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!

Ainda bem que tudo acaba…
Ai que vida tão comprida…
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava!


Mário Quintana

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Problemática do pessimismo


Na vida nada há que não envolva sofrimento.
Desde o amor até a morte,
De um extremo a outro,
Sofrer. Solidão. Sofreguidão.

A felicidade dos fortes
(ou a embriaguês dos fracos)
Não existe.
A vida nos obriga a viver.
E viver é desilusão, é sonolência às seis da manhã,
É engolir o choro e esperar a lua aparecer.

Viver é lutar contra aviões bélicos em pleno deserto,
Às vezes com o coração-escudo de aço, às vezes nu,
E correr, correr, correr... Sabemos que não venceremos.
A vida nos obriga a evitar o que mais desejamos:

O esquecimento eterno.

O que queremos não está nos livros,
Não está no tecido,
Não está no granito nem no espírito.
O que queremos está no abismo!

Não ouça ninguém...
Você quer o fim e o começo
Ar, terra, água e fogo.
O que está entre, está quase,
Não vale a pena.
O que queremos está no abismo.